OUVINDO O SILÊNCIO

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Estamos falando demais. Conversas aleatórias, debates, comentários, opiniões, discussões. Assuntos em excesso! Mensagens, áudios, gritos. Papos cultos. Parlatórios de ideias sem sentido. Julgamentos sem razão. Motivos que não são comentados para não gerarem outras polêmicas. A democracia da fala é necessária. Contudo, a poluição sonora está exagerada. É muito barulho, para poucos ovos botados. Queremos ter voz e vez das nossas verdades, mesmo que elas não estejam enquadradas na moralidade social. É muito colóquio para pouco argumento. Ou estamos argumentando enfaticamente o que não merece mídia. Conversa “fiada”.

Em qual categoria nos encontramos: falação, lorota, interlocução? O que sai da minha boca é útil?

Estamos discorrendo demais. É muita palavra solta, para pouco vocabulário. E existem inúmeros sinônimos no dicionário para esse abrir e fechar da língua solta. A Torre de Babel é pequena diante de todas as linguagens usadas pelos falantes do mesmo idioma. Fala-se, fala-se, mas será que estamos nos entendendo? Cada um está em um momento do dizer. Em algazarra, em balbúrdia, em escarcéu. De um lado, quem faz estardalhaço. De outro, a turma da gritaria. No meio, buscando um espaço para declamar, estão aqueles que fazem zoeira. Estamos na era do alvoroço, dos clamores, dos tumultos. Santo pandemônio.

Quem fala demais, peca? Talvez pelas ações da calúnia, da injúria, da difamação. Pode não ser pecado, todavia, crime é.

Por onde andam os elogios?

Estamos confabulando demais. Lá na Bíblia, em Provérbios, está escrito “Quem realmente detém o conhecimento é comedido no falar, e quem possui o entendimento demonstra alma tranquila”. Porém, até no uso do livro sagrado, na interpretação das passagens e das lições crísticas, tem muito blábláblá. Há mais pregação do que ação. Muita lábia, exemplos incoerentes com o discurso. Quando a oratória é efusiva, é melhor desconfiar dos significados do verbo. O palavreado pomposo se parece mais com tagarelice. A astúcia no uso exagerado dos vocábulos é famosa no banco dos réus: 171.

Quando enfatizamos nosso falatório, esperamos a resposta do interlocutor. Será? Estimulamos uma troca? Queremos que o outro fale, no entanto, estamos dispostos a ouvir?

Estamos em uma prosa sem fim. Queremos uma orelha para desabafar. Entretanto, fazemos “ouvidos de mercador” para absorver somente o que nos interessa. Muita conferência, pouco diálogo. Monólogos de vozes únicas nas redes sociais. Falo, escrevo, debato, opino, posto, atos contínuos da minha solidão. Não ouço, não vejo, não leio, não respondo, não interpreto. Só o que produzo tem valor. Distancio-me daquele que levantou o dedo pedindo atenção. Passou a vez dele, não a minha. Exijo mais tempo para palestrar, porque a ordem é comunicar. Sem objetivo, sem estratégia, sem necessidade. Mais vale ser a galinha que canta.

Silêncio! Já falei mais do que devia, mais do que cabia nesta conversa. Agora é a hora de pensar.

Juliano Azevedo

Jornalista, Professor, Escritor, Terapeuta Transpessoal
Mestre em Estudos Culturais Contemporâneos