Opinião: A Floresta queima, as Mulheres queimam: ecocídio e feminicídio possuem a mesma natureza

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Por Rita de Cássia Fraga Machado
Professora de Filosofia (UEA/Tefé) e Ecofeminista.

Há mais de um ano, uma professora, na cidade de Tefé, foi queimada viva. Não se surpreendam, o feminicídio foi cometido pelo seu ex-marido, que até hoje não foi condenado. Deste então, observo como esses crimes, de colocar fogo em mulheres, virou corriqueiro em casos de violência contra mulheres, aqui não vou me deter a listar esses crimes, minha intenção é refletir sobre como que parece normal ver a Floresta queimar, sem qualquer incomôdo profundo. A professora, as mulheres, assim como a floresta, os rios, os lagos, o ar, sofrem genocídios, e parece não acontecer nada; aliás, acontece: a flexibilização nas leis que deveriam proteger esses desastres. Porque sim, são desastres, são genocídios. Essa foi a definição da procuradora da República em Altamira, Thais Santi, em relação aos crimes de Altamira/PA.

A Floresta queima, as mulheres queimam perifericamente. Os criminosos que colocam fogo somem diante das tragédias que provocam, afinal, quem se interessa por esses territórios: mulheres, índios, povos tradicionais? Sim, são esses que se interessam em manter a vida, a vida humana; e esses povos, incluindo as mulheres, estão nas periferias das grandes cidades. Nossos corpos são tratados como periferia, e, portanto, violentados, maltratados e hostilizados, como a periferia, pois se imagina que tudo de ruim existe por lá. Imaginação estúpida e ignóbil. Em recente artigo, Eliane Brum chamou a atenção para isso, para o periférico dos territórios devastados. “Essa é a angústia de quem luta pelo meio ambiente nesse centro do mundo que é tratado como periferia” e depois a jornalista completa “E, em seguida, esquecida”. Lígia, Mariana, Brumadinho, Altamira, todos periferia, todos explorados e massificados até a morte.

A permanência do patriarcado como estruturante das relações sociais de gênero permite que o corpo das mulheres, historicamente, pertença aos homens e ao Estado. Em sociedades patriarcais, como a nossa, a autonomia sobre nossos corpos ainda é uma luta central dos movimentos feministas. Aqui se agrega a luta ecológica, lutar pelas liberdades dos nossos corpos está condicionado, nas mulheres da floresta, à luta pela liberdade da natureza. Não me entendam mal, pois o que estou propondo como reflexão não é nenhuma ideia essencialista entre mulher e natureza, não é. A proposição é para que possamos pensar como enfrentar questões como essas e que estão atuais e emergentes ao pensamento-ético brasileiro.

Rita Segato, ao questionar o que é o corpo da mulher, se pergunta: “Quem o declara nesse lugar? Quem assim o titula? São seus pares, os outros homens que o intitulam no “clube”. Eles possuem uma estrutura de clube, de confraria, de irmandade, de máfia. Enfim, essa é a estrutura da masculidade, e segue […] é sobre o corpo feminino que ele vai mostrar, exibir que é portador de potência. Há uma afinidade direta do corpo feminino com a visão que temos de território” (Segato, 2010, p. 52). Há uma relação direta entre o corpo da mulher, a natureza e o patriarcado, e é por intermédio da exploração e do uso da força cruel que ele, o homem, mostra a sua conquista.

Segato, assim como outras tantas pensadoras, nos ajudam a pensar e a agir no presente. Afinal, o que está acontecendo com a vida, com a nossa vida? Precisamos mesmo comer tanto agrotóxico, matar um rio inteiro e toda a biodiversidade que existia lá? É preciso queimar a floresta? Digam-me, há necessidade de tanta crueldade e terror?

…às mulheres, aos rios, ao ar, à nossa casa comum.

Tefé, Amazonas, em 13 de setembro de 2019.