LIÇÃO ALEMÃ

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Não gosto de fazer comparações de brasileiros com outras nações, porque parece que vivemos a síndrome do cachorro que caiu da mudança, mas depois de uma viagem à Alemanha é difícil não fazer uma análise em relação ao modo de vida de ambos os países. O nosso jeitinho para resolver tudo é algo peculiar, pois, talvez, as circunstâncias das dificuldades econômicas, as burocracias, os impostos, a falta de acesso às tecnologias, e tantas outras questões que estão no nosso DNA, conceberam essa maneira de viver. É inegável: temos solução para tudo e, realmente, o brasileiro precisa ser estudado.

Na Alemanha, também há jeito para tudo, desde um objeto para tirar sementes de cerejas até soluções mirabolantes como fazer uma rodovia, uma ferrovia, ou um túnel de pedestres, debaixo de um rio como, por exemplo, o túnel localizado abaixo do Rio Elba, em Hamburgo. Com 3,3 quilômetros de extensão, ele é um dos maiores túneis do mundo construído por debaixo de um rio. (Por isso, incomoda-me ouvir dos políticos que em Belo Horizonte não é possível termos metrô por causa do excesso de águas que estão no subterrâneo da capital mineira. Como não sou geólogo, deixo esse assunto para uma outra reflexão – a falta de mobilidade nas cidades tupiniquins.)

A organização alemã é chocante. Está tudo no lugar. No supermercado, produtos similares estão dispostos em ordem alfabética; ninguém atravessa a rua fora da faixa de pedestres nem quando o semáforo está vermelho; os jardins são floridos e bem cuidados e as pessoas podem pisar na grama – claro que não há roubo das flores… Como tenho meu jeitinho de viver, confesso que esse sistema de tudo ser correto é irritante, mas entendi que a lógica deles é diferente da nossa. Acho que falta um pouco de alegria entre eles, contudo não ouvir a música do outro, naqueles radinhos sem fone, nos locais públicos, é um alívio.

O que mais me impressiona nesse povo é a honestidade. É uma característica típica, para não dizer apenas intrínseca, do alemão. Ser honesto é algo tão natural neles, que perguntas sobre como “burlar o sistema” são estranhas. Em Berlim, presenciei uma cena que seria “normal” no Brasil. As catracas do metrô não estavam funcionando, era passe livre para qualquer usuário. Um dia sem pagar o transporte, graças a Deus, diriam na nossa terra. Entretanto, eles pagavam o valor, mesmo com a liberação pelo mau funcionamento do local, deixando moedas em cima das catracas e seguindo o destino. Alegaram que para arrumar o equipamento, era preciso ter o dinheiro deles para tal finalidade. Outra vez, contaram-me que existe uma catraca liberada para quem não pode pagar. Perguntaram ao alemão: por que você não passa por lá, para economizar? Ele respondeu questionando: e por que eu deveria fazer isso?

Lembrei-me de um caso que exemplifica isso:

“Três estudantes não fizeram uma prova, porque não estudaram. Eles elaboraram um plano: sujaram-se com graxa, óleo e gasolina e foram ao professor: – pedimos desculpas. Não pudemos vir ao exame, pois estávamos num casamento e no caminho de volta o carro quebrou, por isso estamos tão sujos, como pode ver.

O professor entendeu e deu-lhes três dias para se prepararem. Na data estipulada, eles foram à escola com o conteúdo na ponta da língua.

O professor os colocou em salas separadas e aplicou a prova que tinha apenas quatro perguntas:

  1. Quem casou com quem?
  2. Que horas o carro quebrou?
  3. Onde exatamente o carro quebrou?
  4. Qual é a marca do carro?

NOTA: Se as respostas forem idênticas, estarão aprovados. Boa Sorte!”

Às vezes, cair do caminhão de mudança nos ensina muitas lições, ou deixa apenas sequelas – o que não deixa de ser um aprendizado. Viajar também. Sempre se aprende com outras culturas, que podemos incorporar ou não. Nesse sentido, acredito que ser honesto, em situações mínimas, ajuda no desenvolvimento de um caráter mais humano, mais social. Afinal, “ser honesto significa escolher não mentir, roubar, enganar ou trapacear de modo algum”.

Luz e Paz.

Juliano Azevedo

Jornalista, Professor, Escritor, Terapeuta Transpessoal.

Mestre em Estudos Culturais Contemporâneos

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